segunda-feira, 11 de junho de 2012

A coragem de amar



             






         O Amor é, foi e sempre será muita coisa. Começa tímido. Aparece disfarçado de paixão. É conquistado e doado a cada etapa da sedução. Dos olhares desejosos aos cortejos generosos, o amor se traduz em palavras para atingir a pessoa amada. O gesto legitima o que se fala. E se prova no fogo, no meio de muita emoção. Dificilmente racional, o amor pressupõe entrega e se entrega sempre que encontra o ser desejado. 

         Amar é sentir saudade. Lembrar dos carinhos dispensados, do prazer daquele beijo molhado, das declarações ao pé do ouvido, dos olhares furtivos. É deixar-se surpreender.

         Amar é a necessidade de conhecer sempre mais. E a graça de compreender o ser amado cada vez melhor. É quando não se domina o que sente apenas se entende que ele precisa expressar. O afeto, a carícia, a fala não dita através do olhar.

         O amor surpreende os corações endurecidos, potencializa os românticos. Mas faz morada mesmo nos corações corajosos. Eles entendem a arte de amar. O amor é próprio de quem mantém a leveza e a liberdade que só este sentimento pode dar.

         Amar é trabalhar na luta contra a rotina e fazer florescer novidade em meio às adversidades. Ser simples presença amiga, refletida em gesto concreto, é decidir permanecer unido ao outro nas tormentas e festividades.

         Amar é respeitar o outro e promovê-lo em seus talentos e dons. É não querer sufocar. É não fazer do ser desejado um latifúndio improdutivo que receia em ser invadido ao menor sinal de desilusão.

         O amor é nobre e gratuito. É um desafio profundo de quem se arrisca na coragem de amar. (Thiago Camara)


            

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dias amargos




Seus dias eram amargos. Todos escondidos com um sorriso dissimulado. Era a caçula de seis filhos. Apesar de sempre ter as atenções voltadas para ela, metera na sua cabeça que os pais não se importavam com seu crescimento. Eles trabalhavam duro, em horário comercial, para poder sustentar a penca de crianças que bagunçava a modesta casa de três quartos. Com carinho era tratada pelos irmãos. Só que descobrira que simulando um jeito ranzinza e de perene insatisfação conseguia mais do que o desejado.  
Já adulta, amargurava as escolhas do passado. À personagem, que interpretava na infância, se acostumara. Não conseguia mais tirar do palco aquela que por tantos anos foi seu álibi e sua fonte de prazeres inesgotáveis. Na escola e na faculdade não encontrou quem pudesse cair na sua armadilha de ser sempre a vítima do mundo. Seguia seus dias sem alegria. Mas o sorriso disfarçava sua insatisfação. Era difícil admitir que seu jogo de cena a levou para um buraco profundo de solidão.
Resmungava. E nada mais lhe parecia valer à pena. Sua vida esperava uma chance de mudar. Até que num raro momento de leveza e sinceridade... Um simples encontro no café da empresa em que trabalhava a aproximou daquele colega. Seu coração, que vivia abarrotado de mágoas, nunca percebera o olhar malicioso do companheiro de andar. Passaram a encontrar-se diariamente, no meio da tarde. Ela reluzia de esperança. Sonhava em livrar-se do buraco em que se encontrava. Ele, com seu jeito cortês e agradável, arrancava boas risadas daquela que só se permitia sorrir forçadamente. 
Começaram a namorar e, como se sabe, no início tudo são flores. Se distanciou, de fato, do seu papel de toda vida. Até que nos primeiros desentendimentos, não resistiu. Como deixar de ser vítima e perder discussões, deixar de fazer sua vontade, conceder ao outro a honra de sair vitorioso sobre ela? A primeira discussão foi feia. Mas sua capacidade de interpretar fez com que o namorado voltasse atrás e abandonasse sua razão. Seguiram assim até completarem nove meses. Sufocado, no desespero de sempre precisar agradá-la, ele se viu cada vez mais distante de si e não agüentou... Pediu demissão, trocou o número do seu celular e voltou para sua cidade, no interior. Ela desesperada viu-se afundando mais uma vez no buraco da solidão. Mas, como sempre fizera durante toda a vida, logo estampava um sorriso para disfarçar sua dor.
Agora tinha tempo de sobra para culpá-lo. Mais do que para perdoá-lo do abandono abrupto e entender as razões para o seu sumiço. Chorava escondido, nutria sua raiva constante por Deus e pelo mundo. E de tanto olhar para suas lamentações, perdia mais uma vez a chance de reconhecer nela mesma o motivo dos seus dias continuarem a ser amargos. (Thiago Camara)       



domingo, 29 de abril de 2012

A força da coragem*







Para onde foi aquela coragem? Aquela gana de ser atirado. O jeito impulsivo e ousado. Parece que ficou à margem do rio da existência que passa sem clemência e leva a inocência para longe daqui.
Quisera voltar no tempo e vasculhar os momentos em que a aparência correspondia à essência de um ser destemido e vital.
Um passo em falso foi duro. Como um golpe abrupto que trouxe para a luz o escuro. E apagou o brilho mais puro de um ser diferencial.
E de repente chegou a mesmice. Aquela velha chatice de em tudo perceber a idiotice que é repetir um proceder normal.
Nada mais desumano esperar que igualar pensamentos seja um alento para os corações sedentos por algum ideal.
Ser diferença é fazer a experiência de que é nobre cada existência. 
A essa altura a coragem nada contra a força do rio para voltar à nascente. E ser força recorrente neste mundo de histórias tão desiguais. (Thiago Camara)

*Texto livremente inspirado no filme Histórias Cruzadas (The Help). Um dos melhores que já vi em toda a minha vida. 
  Veja o trailer:




domingo, 8 de abril de 2012

Mega Missões




                                                                          Foto: David Zapata




Foram só dois dias do feriado da Semana Santa, mas que pareciam uma semana inteira. Saí cedo de casa, muito antes de esperar o sol nascer. A “Cidade Maravilhosa” ainda acordava e eu me preparava para iniciar uma Mega Missão com a Juventude Missionária. Imitar Jesus Cristo e seus apóstolos na alegria, na assistência e no contato com seu povo, mais especificamente o de Araruama, litoral do Estado do Rio.
O clima no ônibus ainda era devagar como se os missionários estivessem guardando forças para os dias que se seguiriam. Seus gestos eram espontâneos, suas faces alegres, o jeito de falar, simples. Estavam ali em busca de algo mais. Iam além da rotina dos grupos e movimentos da paróquia. Falar de Jesus era um privilégio. E lembrá-lo em meio aquela Semana Santa era fazer memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Alguns missionários ficaram à margem da Lagoa de Araruama. O cenário não poderia ser mais bíblico. Fechava os olhos e imaginava que ali Jesus poderia ter caminhado com seus discípulos e numa daquelas barcas, na areia, subido para pregar aos pescadores. Outros foram levar a palavra libertadora de Jesus ao cárcere humano de um lixão. Os relatos de que haviam moscas e urubus disputando espaço com os catadores de lixo me deixaram perplexo. Mas na coragem dos missionários que ali estiveram, vi a presença real do Cristo. Ele que visitava lugares e pessoas que a maioria desprezava, não deixaria de estar com aquele povo mesmo em meio a tanta sujeira.
 Nas visitas às casas e nas celebrações nas capelas e na Matriz de São Sebastião, a alegria e acolhida aos missionários era experimentada. As histórias de vida eram inúmeras. O sofrimento, presente em todas elas. E a fé na certeza de que naqueles dias aquele povo ainda ia experimentar a Ressurreição.




Missionários "loucos" por Jesus na Praia do Hospício

Na Vigília Pascal, depois de exaltarem o Cristo Ressuscitado através do Hino de Louvor (Glória), os que esperaram o cumprimento da promessa, viram e sentiram uma verdadeira “Chuva de Graças”. O Deus fiel deu uma clara demonstração de amor ao seu povo. A resposta só poderia ser de extrema alegria como se viu ao final da celebração, em plena praça, em frente à Igreja. Jovens de todas as idades pulavam, cantavam e dançavam a certeza de que o seu Jesus é um Deus de Mega bênçãos, Mega projetos, Mega amor, Mega doação e Mega serviço.  
Por tudo isso, nossos olhos precisam brilhar a luz de Cristo vivo!
Coragem Missionário!

Obrigado Juventude Missionária, 

Thiago Camara 


Neste vídeo você vai conhecer o serviço da JM na Semana Santa 2012!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A vida é agora




O entardecer na Via Appia Antica, em Roma, Itália (Foto: Thiago Camara)

A vida não admite ensaio. Ela acontece. E precisa de gente que queira fazê-la acontecer. É permeada de sentido e espalha o riso de quem a soube entender. Não se limita ao espaço físico e ecoa para além das ilusões. É concreta e quer gente reta que não faz do seu dia-a-dia uma grande encenação.
A vida acolhe os sofridos e estimula os indecisos a seguir sem hesitação. É fonte de alegria e esperança, na certeza que o grito pode extravasar a opressão. É o sorriso da criança, é o passo da dança que traz à tona a lembrança guardada em algum porão.
A vida é feita de escolhas. Ninguém pode se eximir daquilo que lhe cabe. É como a folha que nasce para ser sombra, mas precisa do caule para lhe sustentar.  É a partilha vivida, é a companhia expressada, o olhar de estímulo e a carícia declarada.
A vida tem suas consequências. Um dia ela cobra de volta o que a gente lhe fez.  É cercada de erros e acertos. Pode renovar a inocência e revelar que a essência é muito mais valorosa que a aparência.
A vida não tem “replay”. É de cenas únicas e raras que precisam ser aproveitadas em cada instante, senão passa. Morre e deixa de ser vida. (Thiago Camara)

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Beleza Mulher




A beleza não se esconde. É crescente e exposta todos os dias em que acorda.
De manhã não se agita. É calma e sempre morosa no início do dia.
Quando se levanta a beleza explana sua alegria e vontade de vida.
Desfila seu encanto e traz ares de requinte aos lugares por onde passa.
A beleza não se perde. É renovada todo dia, no momento em que se faz menina.
Ela tem dengo, charme e ginga. Está sempre a procura de um alento.
À espera do momento que se pode transformar.
A beleza só precisa de um pretexto para se tornar mulher.
Todo dia, a cada hora, instante.
Seja neste oito de março ou qualquer outro, a beleza será sempre sinônimo de você mulher.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Thiago Camara

terça-feira, 6 de março de 2012

Cárcere











Vivia num cárcere. Seus gestos eram milimetricamente calculados. E até se acostumara a ser comedida na fala, no sorriso e no pensamento. De uma criança alegre e ousada, tornara-se uma adulta desconfiada. Tudo ao seu redor poderia ser sinal de ameaça. Não sabia mais se relacionar com leveza. E seu discurso era, às vezes, abrupto e descontrolado. Todos tinham medo de chamar sua atenção. Aos poucos, afastava de si os amigos, os colegas de trabalho e os familiares. E se afastava de si mesma.
E vivia num cárcere. Repetia suas atitudes diárias como que em movimentos simulados. Chegava em casa correndo para deixar o jantar à mesa. Precisava cumprir o protocolo de recebê-lo envolvida no avental que ele dera a ela. O marido, como de costume, entrava em disparada para o banho. Envolvido com seus problemas de trabalho, não notava o vai e vem da esposa para agradá-lo. Ela, por sua vez, se saciava só em vê-lo devorar os quitutes que fizera. Não trocavam muitas palavras.
Era um cárcere. A cama era o único lugar onde se comunicavam. Ele reclamando dos defeitos e deslizes dela. Ela calada, tentava esboçar uma reação, mas tinha medo do que sua atitude poderia gerar. E seguiam construindo uma vida de aparências. Nas redes sociais, os poucos momentos em que ainda se divertiam eram estampados, compartilhados e curtidos. Ela conseguira, a muito custo, a autorização do marido para expor o casal para Deus e o mundo. Era ali que conseguia respirar um pouco de liberdade. Mas dentro de casa era um cárcere.
 Um cárcere. Tinha dificuldade de romper com esta situação. Tinha medo da liberdade. Não sabia o desconhecido que seria sua vida sem a presença do marido. Tinha medo de dar o primeiro passo. Tinha medo mesmo da sua felicidade. Acomodada, ela raramente se dava conta que a falta de atenção a incomodava. No fundo tinha esperança que sua vida voltasse a ser das alegrias dos primeiros encontros.
Cárcere. Presa, ela não se sentia sufocada. Era como se esta situação fosse a única solução para sua vida. Não havia possibilidade de mudança. Estava fadada ao insucesso. Esquecera até que nos tempos de escola era ela quem ganhava todas as medalhas de ouro nas competições de natação. Estava resignada à condição frustrante de viver sem perspectiva de lutar pela sua vida. Porque até a sua alma estava aprisionada. Sem forças, ela tentava também atentar contra a própria vida, mas se dera conta que morrera desde o primeiro dia em que se sujeitara a viver no cárcere. (Thiago Camara)