quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Avenida Brasil"






Boa parte do Brasil, inclusive este blogueiro, acompanhou com militância “Avenida Brasil”, novela das nove, da Rede Globo. Este folhetim, de fato, é envolvente e bem escrito. Mas o tema central do enredo não é lá muito novo assim. A vingança tem sido assunto recorrente nas últimas novelas globais exibidas no horário nobre. Povoou os capítulos de “A Favorita” (2008), de João Emanuel Carneiro, o mesmo de Avenida Brasil; “Passione” (2010), de Silvio de Abreu; Fina Estampa (2011), de Aguinaldo Silva, entre outras. 

Dizem que ela é um prato que se come frio. Outros afirmam que ela não compensa. O fato é que a vingança ilude, cega e dá uma falsa sensação de justiça. A pessoa que se deixa dominar por este sentimento se perde nele mesmo e ainda tem a pretensão de fazer o papel de Deus, nesta ânsia em dar o troco por algum mal realizado. Vamos à novela. Rita/Nina passou sua vida inteira com a ideia fixa de se vingar de sua madrasta Carminha por um roubo cometido e todo mal praticado contra o seu falecido pai. Nesta obsessão por acabar com a vida da ex-madrasta, Nina perde referenciais, valores, e até o amor que nutre por Batata/Jorginho seu namorado de infância que conheceu no lixão onde morou. O papa João Paulo II dizia que “o homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido...”. Sendo dominada pelo sentimento da vingança, Nina perde sua beleza e generosidade, além de passar a ser estranhada por aqueles que conviviam com ela anteriormente ao plano ser colocado em prática. 



Apesar de acompanhar a novela, achei pesado o núcleo central que envolve as protagonistas mesmo para horário em que é veiculada. Suas cenas são carregadas de tensão. Num Brasil ainda com alto índice de analfabetismo, temos milhares de analfabetos midiáticos. E é aí que mora o perigo. A força da TV é tão grande, que o povo pode adotar a vingança como prática instituída, na ausência de uma justiça eficaz e rápida, e transformar o faz de conta em ação, a ficção em realidade. 

O que me pergunto é por que não se contam histórias que podem ir além do simples entretenimento? Num Brasil tão manchado pela corrupção, desonestidade, ganância e injustiça, a novela brasileira pode tratar de valores. Falar de valores é falar de vida, é dar ao ser humano aquilo que o preenche como indivíduo. E não me venham dizer que estes assuntos não dão audiência. Aqui neste blog já escrevi sobre a bela novela das seis, de Lícia Manzo, "A Vida da Gente". O folhetim abordou dramas reais e existenciais de seus personagens. Suas dificuldades com as surpresas da vida, angústias pelas escolhas que fizeram e pelos papéis que desempenharam nos relacionamentos uns com os outros. 


João Emanuel Carneiro optou pelo caminho inverso. Ao invés de valorizar coisas boas, trouxe à tona a sujeira que a humanidade se permite viver. Fez uma novela realista. O pano de fundo, não poderia ser mais simbólico: um lixão. Lá tudo começou e deve terminar. As protagonistas foram criadas numa condição sub-humana de se trabalhar. Catando restos, tralhas e trecos, e ao saírem de lá permaneceram impregnadas de imundícies que mancharam até suas almas e caráter. O fato de viverem dia a dia com o lixo não justifica nenhuma de suas atitudes no decorrer do folhetim. E nem que no lixo só haja sujeira e podridão. Como diz o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Nesta realista novela, com Carminha o autor mostrou como se pode estar rodeado de pessoas hipócritas que fazem discursos, invocam o nome de Deus, mas não vivem o que dizem. E ao mesmo tempo, de como o mundo é feito de Adautos que não sabem nem se expressar direito, mas tem uma retidão de coração e caráter inabaláveis. Ou de um Tufão que para amenizar sua culpa de ter atropelado um homem, deixa-se enganar pela suposta viúva abandonada. Além dos apaixonados Jorginho que não desistiu do seu grande amor, e Monalisa que por comodismo quase perdeu seu Tufão para sempre.  

   
Voltando à ficção. “Avenida Brasil” é um exemplo de afinação entre texto e direção. Suas cenas ficarão na memória da teledramaturgia brasileira. Cenas que nos faziam pensar que se tratava de um filme, em plena sala de casa. Mesmo com o deslize do núcleo Zona Sul que com uma história piegas não teve fôlego para chegar ao final da novela, o saldo é positivo. Com drama, suspense, comédia e ação. Uma mistura boa e inquietante. Talvez este tenha sido seu maior mérito: saber contar bem sua história. (Thiago Camara)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O baile do vento e do mar


         

        Queria me banhar nas águas do teu sofrido olhar. Pegar carona com o vento e cheirar seu perfume novo pra me acalmar. Lançar-me nos mares de ti e sentir-me escolhido por ser o primeiro do teu pensar. 

        Como onda que se entrega, nela quero tudo aquilo que me faz sonhar. Seu abraço, o amasso, a cena que deixamos por realizar. O corpo em chamas só tua água pode acalmar. É lembrar-me ser teu abrigo, o amigo que te impulsiona ao te escutar. 

        Há de certo que o barco espera a gente para começar a navegar. Quero estar pronto, disposto a ver teu rosto coberto pela alegria que anima meu esperar. A paixão que me encanta ainda tem eco naquelas primeiras trocas de olhar.  De hoje em diante, quero voltar a bailar como a sintonia do vento e do mar. 
(Thiago Camara)

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Grande Encontro




Fazia alguns anos que não se demorava naquele lugar. Tinha feito escolhas que o levaram a um universo muito peculiar. Era como se vivesse num castelo, preso, acabrunhado, deslocado. Sentir aquele cheiro o renovava. Ouvir aqueles sons o remetia à sua idade mais livre. Estar ali o enchia de poesia. E sua alma de tão cinzenta se coloria a cada segundo ali estático.


Seus pensamentos vinham intensos e mansos. Tinha a chance de trazer sua vida de volta ao rumo que um dia descarrilou. O peito estufava a cada respirada e logo os olhos eram preenchidos de lágrimas. As águas salgadas desciam com um misto de arrependimento e esperança. Vivia um novo encontro. 


Havia abandonado um grande tesouro. Negara todas as alegrias e vivências compartilhadas por longos anos de convívio. Foram promessas cumpridas, vitórias divididas, lutas combatidas e tudo isto tinha ficado ao largo de sua vida. 


Ouvia uma voz interior dizendo: “sempre é tempo de recomeçar”. Pensava que de tão clichê esta afirmação poderia lhe ser útil neste momento de reencontro. Era a oportunidade de dar uma chance à coragem que estava adormecia dentro de si. 



Ele estava ali diante dos seus olhos. Imenso, infinito, profundo e manso. Parecia que estava à espera do seu passo. Ansioso por recebê-lo mais uma vez em seus braços. O mar tinha todo um jeito de fazê-lo sentir-se mais perto de Deus. Era como se o Criador tivesse preparado aquele cenário para falar novamente do seu amor. 



Lançou-se, então, com destemor. Rumava para mais longe e seguia sem hesitar. A liberdade de ali estar, o consumia. Sentia o sol pulsante a lhe esquentar. Lembrava de como era sua história antes de se afastar do seu melhor amigo. A alegria, enfim, voltava ao seu lugar. A esperança varria seus cabelos com a força do vento a soprar. 


Naquela manhã, era como se Deus tivesse se personificado naquele mar para trazer seu filho de volta ao caminho. Não podia mais deixar de contar com aquele que um dia o ensinou a ser também pescador de homens. As ondas batiam com mais fervor. O vento soprava um novo impulsionar. E o sol iluminava seus pensamentos com fé e poesia. Vivia um novo encontro. Mas este era como se fosse o grande encontro. (Thiago Camara)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Um novo vigor para fé

Falta um ano para o maior evento da Igreja Católica chegar ao Rio de Janeiro. A Jornada Mundial da Juventude, em Madrid, marcou minha experiência de fé. Ganhei novo ânimo, vida nova, para seguir na minha caminhada com Jesus Cristo. Sua proposta é atualizada a cada novo discípulo que decide segui-lo. 
           
Este texto foi escrito durante a minha estada em Madrid e originalmente publicado no Jornal O Testemunho de Fé, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. 
            
*Agradeço a prima Fernanda Ferreira pela tradução para o inglês e a amiga Rosiane Rigas pelas versões em espanhol e francês.







Cheguei a Madrid cansado de caminhar na fé. Porém, a cada encontro, celebração ou atividades propostas sentia-me revigorado na alma. O cansaço físico também me acompanhou em todos os dias da Jornada Mundial da Juventude. Era a alegria de ver uma Igreja vibrante que atenuava minhas dores do corpo. Vivia intensamente o tema da JMJ e sentia-me cada vez mais enraizado em Cristo, firme na fé. 


O rosto de Jesus estava aqui com diferentes cores, formatos, tamanhos e expressões. Principalmente, no sorriso acolhedor do Papa Bento XVI, aclamado por milhares de vozes a uma só voz. As palavras do Santo Padre incitavam os jovens a uma nova evangelização. Ele pedia para sermos criativos e saudava-nos em diversas línguas, mostrando a universalidade da Igreja de Cristo.






Os bispos brasileiros estão sendo verdadeiros apóstolos, no ensino da catequese. A acolhida da Igreja de Madrid está sendo "muy buena". Aliás, o Brasil é muito bem acolhido por todas as nações que aqui estão. Nesta festa da fé, a Igreja Católica do mundo inteiro está representada e a esperança de aqui na Terra construir o Reino dos Céus é renovada.


Em sua arquitetura, parques e avenidas, a imponente cidade de Madrid e o mundo, ali representado, testemunhavam a imponente presença de Jesus Cristo. Sua Igreja, mais viva do que nunca, seguirá com o desafio de levar o Evangelho aos jovens de todo mundo. As dificuldades do anúncio são as mesmas: o jovem de hoje está muito ocupado, não tem tempo para Jesus. Mas o estímulo à missão é o mesmo que leva há mais de 2 mil anos homens e mulheres a se gastarem no serviço ao Bom Pastor.


Eu, impactado e refeito, só posso sair daqui querendo ser o Cristo que experimentei. O cansaço, tornou-se mero detalhe. (Thiago Camara)




A new force for faith
By Thiago Camara



I reached Madrid tired of walking in faith. Thus, at each meeting, celebration or activity proposed, I felt like my soul was renewed. The physical exhaustion also joined me throughout the World Youth Day.


The joy of seeing such a vibrating church was what softened my ached body. I lived the WYD theme intensively and felt even more rooted in Christ, tough in faith.


The face of Jesus was present in different colors, shapes, sizes and expressions. Mainly on Pope Bento XVI smile, acclaimed by thousands of voices combined in one. The words of the Holy Father urged the youth for a new evangelization. He claimed for us to be more creative and greeted us in different languages, showing the universality of the Church of Christ.


The Brazilian bishops are true apostles in the teaching of catechesis. The Madrid Church welcome was "muy buena". In fact, Brazil is always welcomed by all the nations present here. In this party of faith, the Catholic Church world wide is represented. And the hope to build a Kingdom of Heaven on earth is renewed.


In its architecture, parks and avenues, the magnificent city of Madrid, and the world represented there, witnessed the imposing presence of Jesus Christ. His Church, more alive than ever, will continue with the challenge to take the Gospel to youth all over the world. The inicial difficulty is the same: the current youth generation is busy and lacking time for Jesus. But the incentive is the same mission that for 2.000 years has taken men and women to consume themselves in the service of the Good Shepherd.


And I, impacted and remade, can only walk out of here wanting to be the Christ that I experienced. Fatigue then became a slight detail.



Una nueva fuerza de la fe 
Thiago Camara 




Me vine a Madrid cansado de caminar en la fe. Sin embargo, en cada uno de las actividades de reunión, celebración o en proyecto, me sentí refrescado el alma. El cansancio físico también me acompañó todos los días del Día Mundial de la Juventud. Fue una alegría ver a una iglesia vibrante que calificaron mi dolor en el cuerpo. Vivió intensamente el tema de la JMJ y me sentí más arraigados en Cristo, en la fe. 




El rostro de Jesús estaba allí con diferentes colores, tamaños, formas y expresiones. Sobre todo, la sonrisa de bienvenida del Papa Benedicto XVI aclamado por miles de voces con una sola voz. Las palabras del Papa instó a los jóvenes a una nueva evangelización. Pidió que ser creativos y nos saludó en varios idiomas, que muestra la univers

alidad de la Iglesia de Cristo. 

Los obispos brasileños son los verdaderos apóstoles, la enseñanza del catecismo. La acogida de la Iglesia de Madrid es "muy buena". De hecho, Brasil es bien recibida por todas las naciones que están aquí. En esta fiesta de fe de la Iglesia Católica y el mundo se representa la esperanza en la tierra para construir el reino de los cielos se renueva. 


En su arquitectura, parques y paseos, la magnífica ciudad de Madrid y el mundo representado allí, testigo de la imponente presencia de Jesucristo. Su iglesia, más vivo que nunca, continuará con el desafío de llevar el Evangelio a los jóvenes de todo el mundo. Las dificultades de los anuncios son las mismas: los jóvenes de hoy están muy ocupados, no hay tiempo para Jesús. Sin embargo, el estímulo es la misma misión que tiene más de 2.000 años hombres y mujeres para pasar al servicio del Buen Pastor. 




Me impactó y rehacerse, solo puedo salir de aquí queriendo ser el Cristo que he experimentado. La fatiga se convirtió en un mero detalle. 





Une nouvelle force de la foi
Thiago Camara



Je suis venu à Madrid, fatigué de marcher dans la foi. Cependant, à chaque activités réunion, fête ou je me sentais rafraîchi proposé l'âme. La fatigue physique s'accompagne également m'accompagneront tous les jours de la Journée Mondiale de la Jeunesse. Ce fut une joie de voir une église vivante qui se sont qualifiées mes courbatures. Il a vécu intensément le thème de la JMJ et je me sentais plus enracinés dans le Christ, dans la foi.



Le visage de Jésus était ici avec différentes couleurs, formes, tailles et d'expressions. Principalement, le sourire accueillant du pape Benoît XVI salué par des milliers de voix d'une seule voix. Les paroles du pape a exhorté les jeunes à une nouvelle évangélisation. Il a demandé à être créatifs et nous ont accueillis dans des langues différentes, montrant l'universalité de l'Église du Christ.


Les évêques brésiliens sont de vrais apôtres, enseignant le catéchisme. L'accueil de l'Eglise de Madrid est "muy buena". En fait, le Brésil est bien accueillie par toutes les nations qui sont ici. En cette célébration de la foi de l'Église catholique et le monde est représenté l'espoir sur la terre pour construire le royaume des cieux est renouvelé.




Dans son architecture, ses parcs et promenades, la magnifique ville de Madrid et le monde qui y sont représentés, témoins de la présence imposante de Jésus-Christ. Son église, plus vivant que jamais, va continuer à relever le défi d'apporter l'Evangile aux jeunes du monde entier. Les difficultés de l'annonce sont les mêmes: les jeunes d'aujourd'hui sont trop occupés, pas de temps pour Jésus. Mais le stimulus est la même mission qui prend plus de 2000 hommes ans et les femmes à passer au service du Bon Pasteur.




J'ai touché et refait, je ne peux laisser ici de vouloir être le Christ que j'ai vécu. La fatigue est devenu un simple détail.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Bondade





Hoje eu vi a bondade de perto. Ela tinha um olhar sincero. Um rosto tranquilo, de quem sabe o que é ser honesto. Sua expressão era calma e denunciava a alegria de uma alma sedenta por agir de modo correto. A bondade não se apropria do que é do outro nem espera um milagre para poder bancar um sujeito esperto. Ela é reta. Se alivia com o alívio alheio e sabe partilhar tudo como numa grande ceia.  
Ela existe bem perto. Mas insistem em fazer dela notícia só em momentos dispersos, como se ela fosse um substantivo exclusivo de momentos inéditos.  Ora, por que nos acostumamos a achar que a bondade é o anormal? O ser humano é muito mais belo e completo quando a carrega no braço. Ela transforma ambientes. Ilumina corações e desperta mentes engessadas e desiludidas.
Ela nasce na leveza de quem acredita que sua beleza é não querer ser só esperteza. Às vezes é ingênua e descansa em sorrisos e gestos celestiais. A bondade é um tesouro escondido que procura abrigo nos lares em que a ela é permitido morar.  
A bondade é afável. Se entrega na certeza de manter esperança. Não opta pela vingança, nem perde a lembrança de ser um tanto vital. É carinho, é sorriso, é o lado essencial para o ser humano que quer viver de modo natural. (Thiago Camara) 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A coragem de amar



             






         O Amor é, foi e sempre será muita coisa. Começa tímido. Aparece disfarçado de paixão. É conquistado e doado a cada etapa da sedução. Dos olhares desejosos aos cortejos generosos, o amor se traduz em palavras para atingir a pessoa amada. O gesto legitima o que se fala. E se prova no fogo, no meio de muita emoção. Dificilmente racional, o amor pressupõe entrega e se entrega sempre que encontra o ser desejado. 

         Amar é sentir saudade. Lembrar dos carinhos dispensados, do prazer daquele beijo molhado, das declarações ao pé do ouvido, dos olhares furtivos. É deixar-se surpreender.

         Amar é a necessidade de conhecer sempre mais. E a graça de compreender o ser amado cada vez melhor. É quando não se domina o que sente apenas se entende que ele precisa expressar. O afeto, a carícia, a fala não dita através do olhar.

         O amor surpreende os corações endurecidos, potencializa os românticos. Mas faz morada mesmo nos corações corajosos. Eles entendem a arte de amar. O amor é próprio de quem mantém a leveza e a liberdade que só este sentimento pode dar.

         Amar é trabalhar na luta contra a rotina e fazer florescer novidade em meio às adversidades. Ser simples presença amiga, refletida em gesto concreto, é decidir permanecer unido ao outro nas tormentas e festividades.

         Amar é respeitar o outro e promovê-lo em seus talentos e dons. É não querer sufocar. É não fazer do ser desejado um latifúndio improdutivo que receia em ser invadido ao menor sinal de desilusão.

         O amor é nobre e gratuito. É um desafio profundo de quem se arrisca na coragem de amar. (Thiago Camara)


            

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dias amargos




Seus dias eram amargos. Todos escondidos com um sorriso dissimulado. Era a caçula de seis filhos. Apesar de sempre ter as atenções voltadas para ela, metera na sua cabeça que os pais não se importavam com seu crescimento. Eles trabalhavam duro, em horário comercial, para poder sustentar a penca de crianças que bagunçava a modesta casa de três quartos. Com carinho era tratada pelos irmãos. Só que descobrira que simulando um jeito ranzinza e de perene insatisfação conseguia mais do que o desejado.  
Já adulta, amargurava as escolhas do passado. À personagem, que interpretava na infância, se acostumara. Não conseguia mais tirar do palco aquela que por tantos anos foi seu álibi e sua fonte de prazeres inesgotáveis. Na escola e na faculdade não encontrou quem pudesse cair na sua armadilha de ser sempre a vítima do mundo. Seguia seus dias sem alegria. Mas o sorriso disfarçava sua insatisfação. Era difícil admitir que seu jogo de cena a levou para um buraco profundo de solidão.
Resmungava. E nada mais lhe parecia valer à pena. Sua vida esperava uma chance de mudar. Até que num raro momento de leveza e sinceridade... Um simples encontro no café da empresa em que trabalhava a aproximou daquele colega. Seu coração, que vivia abarrotado de mágoas, nunca percebera o olhar malicioso do companheiro de andar. Passaram a encontrar-se diariamente, no meio da tarde. Ela reluzia de esperança. Sonhava em livrar-se do buraco em que se encontrava. Ele, com seu jeito cortês e agradável, arrancava boas risadas daquela que só se permitia sorrir forçadamente. 
Começaram a namorar e, como se sabe, no início tudo são flores. Se distanciou, de fato, do seu papel de toda vida. Até que nos primeiros desentendimentos, não resistiu. Como deixar de ser vítima e perder discussões, deixar de fazer sua vontade, conceder ao outro a honra de sair vitorioso sobre ela? A primeira discussão foi feia. Mas sua capacidade de interpretar fez com que o namorado voltasse atrás e abandonasse sua razão. Seguiram assim até completarem nove meses. Sufocado, no desespero de sempre precisar agradá-la, ele se viu cada vez mais distante de si e não agüentou... Pediu demissão, trocou o número do seu celular e voltou para sua cidade, no interior. Ela desesperada viu-se afundando mais uma vez no buraco da solidão. Mas, como sempre fizera durante toda a vida, logo estampava um sorriso para disfarçar sua dor.
Agora tinha tempo de sobra para culpá-lo. Mais do que para perdoá-lo do abandono abrupto e entender as razões para o seu sumiço. Chorava escondido, nutria sua raiva constante por Deus e pelo mundo. E de tanto olhar para suas lamentações, perdia mais uma vez a chance de reconhecer nela mesma o motivo dos seus dias continuarem a ser amargos. (Thiago Camara)