segunda-feira, 17 de junho de 2013

#oGiganteAcordou



O Gigante acordou. E não acordou rude, mal humorado, desalinhado. Levantou de um longo sono unido, bonito, pacífico, ordeiro, intenso. Na histórica segunda-feira, 17 de junho, o Gigante reuniu cerca de 250 mil pessoas, em onze capitais, simultaneamente. Impulsionados pelas redes sociais, milhares de jovens saíram do sofá e foram protestar nas ruas. No Distrito Federal, o Congresso Nacional foi tomado por manifestantes de forma pacífica. Emblemática noite de segunda-feira
Mar de gente na Av. Rio Branco. E não era carnaval. Era manifestação 
O Rio de Janeiro reuniu 100 mil pessoas. Todo o tipo de gente no asfalto da Rio Branco. Eram jovens do Ensino Médio, universitários, trabalhadores em geral. Uma brava gente, bem brasileira que cantava palavras de ordem contra o aumento da passagem de ônibus e os gastos com a Copa do Mundo.
O clima era ameno. E uma comunhão de insatisfação gerou um belo espetáculo de cidadania. No asfalto, os jovens eram maioria. No alto dos prédios, pessoas incentivavam a manifestação. Acenando, jogando papeis e piscando as luzes das janelas demonstrando adesão. Lá embaixo, a galera ia à loucura. Sentiam que estavam fazendo história.
Theatro Municipal ocupado sem danos ao seu patrimônio
Os manifestantes atuaram de forma organizada ao longo do trajeto da Candelária à Alerj. Já na rua Primeiro de Março, uma minoria destoou do movimento pacífico e tentou manchar com vandalismo e violência uma noite majoritariamente de paz. As emissoras de tevê aberta até tentaram exaltar só este fato. Mais uma vez as redes sociais, revelaram seu protagonismo. Era de lá que vinha a verdade. O movimento foi registrado por posts, tweets, comentários, fotos. Na Cinelândia, o Theatro Municipal foi tomado em suas escadarias e janelas e emitiu nota, pelo Facebook,  "que durante a manifestação nenhum dos seus prédios sofreu qualquer dano, apesar do grande número de pessoas que participaram da passeata de hoje à noite". 

O Gigante acordou no momento certo. Os olhos do mundo estão voltados para ele. Mostrou sua cara. Sua juventude não é alienada e pode ser engajada. Como já havia acontecido pelo mundo, hoje vimos que no Brasil: “o post é a voz que nos libertará”. Agora é a hora de sair do sofá. (Texto: Thiago Camara. Fotos gentilmente cedidas por Arthur William)  

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tudo nada




Nada tudo esconde o medo do desejo absoluto
Tudo nada mais é fonte de um porto seguro
Nada tudo se rompe no pulsar da dor do luto
Tudo nada espera um olhar profundo
Nada tudo encanta um coração puro
Tudo nada pode ser perfeito
Há de haver defeito
Um sinal vermelho
Um amor desfeito
Um olhar sem jeito
Uma vida rara
Uma paz sonhada
Uma mulher amada
Uma folha amassada
Uma tristeza... passa
Um tudo... nada
(Thiago Camara)

domingo, 10 de março de 2013

O Méier foi a (à) Bahia


Pai e filho relembraram os sucessos do disco dos Novos Baianos de 1972 


A rua era a Dias da Cruz, Zona Norte carioca, mas parecia a baiana Praça Castro Alves. O som era da década de 70. Intenso, leve, alegre, daqueles que ecoam pelas memórias da vida. No palco, um velho e eterno novo baiano: Moraes Moreira.

No sábado, 9 de março, o show em comemoração pelos 40 anos do disco dos Novos Baianos – “Acabou Chorare” – levou uma catarse musical, ao novo Imperator (Centro Cultural João Nogueira), no Méier.  Sucessos se enfileiravam no set list, de “Besta é tu” a “Preta, pretinha”, passando por “Mistério do Planeta” e “Brasil Pandeiro”. Ao lado de Davi Moraes, seu filho, Moraes esbanjou vitalidade e energia para cantar a Bahia.  

“Pede para ele cantar uma musiquinha ruim. Tô cansado de tanta música boa”, afirmou, irônico e perplexo, meu irmão, companheiro desta jornada musical.

Durante o show, era como se o Farol da Barra estivesse ali, iluminando aquela noite. Como se as ladeiras do Pelourinho se materializassem com sua magia e alegria. O trio elétrico pedia passagem convidando aquela gente bronzeada a mostrar o seu valor. E foi o que Moraes Moreira fez: um grande Swing de Campo Grande, com a guitarra afinada e potente de Davi que protagonizou um dos melhores momentos da apresentação ao mostrar a força do “Maracatu Atômico”, e só no instrumental. Com direito a descida do palco para uma performance junto à plateia. Foi uma breve ponte entre o Rio e o Recife, ao lembrar de Chico Science e sua Nação Zumbi. A ausência da voz de Baby do Brasil foi sentida em “A menina Dança” e “Tinindo Trincando”. Mas a força da interpretação de Moraes e Davi deixou as lembranças de lado.

A parte técnica do Imperator contribuiu e muito para a qualidade da apresentação. Som e luz impecáveis também ajudaram a fazer o show ser memorável. A presença de um espaço cultural como este, em plena Zona Norte do Rio, mostra a importância de investimentos fora do eixo Centro-Zona Sul.
Influenciados pelos tropicalistas, surgiram os Novos Baianos nos anos 70. A Bahia ganhou o Brasil. O Brasil viu sua brasilidade ser reforçada pela intensidade, alegria e qualidade da música baiana. E naquela noite de 9 de março, o Méier foi a Bahia. Não se sabe bem se ela que veio a ele ou vice-versa. O que não se pode negar é que foi uma noite inesquecível de reverência ao melhor do Brasil.
(Thiago Camara)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ele é esperança



Ela nasce no escuro e surge no horizonte noturno onde os olhos não podem ver

Ela surge brilhante, uma luz incessante que aquece o peito de quem a resolve acolher.

Ela renova a lembrança de um ser que avança sem medo de viver.

Ela é a liberdade de sonhar, a certeza de alcançar, a graça que há em amar.

Ela se faz menino que mesmo sem abrigo decide em nós renascer.

Ela se chama esperança, mas também tem por nome Jesus. 


Feliz Natal e um 2013 cheio de esperança! 

Thiago Camara 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cenas urbanas



Outras cenas urbanas são gentilezas que fazem parte do nosso dia a dia



Duas cenas clássicas do cotidiano urbano. Tinham tudo para dar errado. E reforçariam minha certeza de que a humanidade está perdida, de que o “olho por olho, dente por dente” é o que prevalece, de que o homem é um idiota mesmo que vai morrer sozinho com seus gadgets, tablets, Iisso, Iaquilo, porque só sabe se relacionar com – e por meio das – as  máquinas. 

Fui surpreendido. 


Chegava a uma Ipanema de sol a pino em pleno primeiro sábado do mês. Praia lotada, todo mundo querendo se preparar para o verão. Devia ter gente de todo lugar da cidade. A Lagoa Rodrigo de Freitas, ali bem próxima, estava com seu entorno quase que todo interditado para estacionamento. Eu e minha namorada tínhamos um compromisso no meio da tarde, neste cenário, e precisávamos de uma vaga para estacionar o carro. Rodamos um pouco e, incrivelmente, na Visconde de Pirajá (rua principal do bairro) vimos um cidadão colocando uma toalha na mala do seu veículo. Pensamos: “ih agora que nos viu parados, vai fazer hora, fingir que não está nos vendo, só pra ter o prazer de jogar na nossa cara que ele sai da vaga na hora que ele quiser...” e outras coisas que os cariocas adoram fazer nos estacionamentos dos shoppings centers. Perguntamos se ele ia sair. E ele veio até o nosso carro e “todo preocupado” disse: “Vocês podem esperar um pouquinho? É que meu caro está fervendo (estava no sol) e eu estou esperando minha esposa que entrou ali na galeria”. Olhamos um para a cara do outro e pensamos em voz alta, claro! Acertamos na loteria. Uma vaga em Ipanema, em dia de sol. 


Como se não bastasse, a gentileza do nobre cidadão continuou. Vendo que a esposa demorava além da conta nas vitrines da galeria, ele preocupado em nos fazer esperar ainda mais, foi atrás dela, a apressou para entrar no carro e sair para dar lugar a nós. A esposa chegou com a filha. A menina entrou no banco de trás com o pai e a mãe seguiu ao volante. Antes que ela terminasse a manobra, o nobre cidadão ainda virou-se para trás, acenou e deixou na gente uma sensação de esperança e certeza de que educação e gentileza são inspiradores nos dias de hoje. Ganhamos o sábado.


A outra cena foi no Grajaú, bairro em que moro. Estava saindo de casa para fazer natação e tocou o interfone. Era o porteiro dizendo que o vizinho de umas quatro casas para trás estava lá embaixo reclamando que nosso carro, que fica na rua, estava atrapalhando seu entrar e sair de casa. Detalhe o carro já estava parado na frente da casa dele há alguns meses. Já desci, pensando no pior. Ao chegar à portaria me deparei com um senhor de cabelos brancos, muito educado, simpático e que ficou me pedindo desculpas por estar me importunando. “Imagina, vamos lá resolver isso”, eu disse quase que emendando num convite para ele subir e tomar um café comigo. Na porta de sua casa, coloquei o carro poucos metros para trás e acabei com o incômodo que o estava inquietando. Ele me agradeceu demais e pediu também mais desculpas por ter tomado meu tempo. Resultado: conheci um vizinho educado, prestativo, simpático, gentil. E tive a certeza de que há muitas mentes e corações bondosos e solícitos escondidos nos nossos centros urbanos. Pena que encontrá-los me causou tamanho espanto inicial e vontade de escrever este texto para disseminar esses gestos simples para além do meu peito. Poderia ser sempre assim. Ganharíamos os dias. (Thiago Camara)         

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Namorar







Se o amor chegou faz tempo, não deixa ele morrer por dentro. 
O dia traz a chance de recomeçar.
À noite é certeza de poder encontrar. 
Sorriso sincero, aquele jeito reto, a paz que emana do olhar. 
Nada pode ser senão beleza. 
Espera ansiosa de quem se reconhece na franqueza. 

Se o tempo é inimigo do amor? 
Só para aqueles que nas primeiras brigas o substituem pelo rancor. 
O sol vem iluminar e a lua conosco se apaixonar. 
As estrelas enfeitam o céu, lugar onde a gente, um dia, vai morar. 
Nada pode ser senão certeza. 
Que mexe por dentro e acalma o coração no tormento. 

Se me faz melhor, não pode ser um samba de uma nota só. 
Tem que ser recíproco e contínuo. 
É testar a paciência, ser alegria na ausência, 
é a chance que se tem de sempre caminhar.
Nada pode ser senão leveza. 
Que conquista de primeira e leva a dureza pra longe daqui. 


Se é luz no escuro, se me encanta o futuro que posso trilhar, se é cuidado puro...
Ah! nada pode ser senão namorar, noivar e um dia, enfim, casar! (Thiago Camara) 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Avenida Brasil"






Boa parte do Brasil, inclusive este blogueiro, acompanhou com militância “Avenida Brasil”, novela das nove, da Rede Globo. Este folhetim, de fato, é envolvente e bem escrito. Mas o tema central do enredo não é lá muito novo assim. A vingança tem sido assunto recorrente nas últimas novelas globais exibidas no horário nobre. Povoou os capítulos de “A Favorita” (2008), de João Emanuel Carneiro, o mesmo de Avenida Brasil; “Passione” (2010), de Silvio de Abreu; Fina Estampa (2011), de Aguinaldo Silva, entre outras. 

Dizem que ela é um prato que se come frio. Outros afirmam que ela não compensa. O fato é que a vingança ilude, cega e dá uma falsa sensação de justiça. A pessoa que se deixa dominar por este sentimento se perde nele mesmo e ainda tem a pretensão de fazer o papel de Deus, nesta ânsia em dar o troco por algum mal realizado. Vamos à novela. Rita/Nina passou sua vida inteira com a ideia fixa de se vingar de sua madrasta Carminha por um roubo cometido e todo mal praticado contra o seu falecido pai. Nesta obsessão por acabar com a vida da ex-madrasta, Nina perde referenciais, valores, e até o amor que nutre por Batata/Jorginho seu namorado de infância que conheceu no lixão onde morou. O papa João Paulo II dizia que “o homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido...”. Sendo dominada pelo sentimento da vingança, Nina perde sua beleza e generosidade, além de passar a ser estranhada por aqueles que conviviam com ela anteriormente ao plano ser colocado em prática. 



Apesar de acompanhar a novela, achei pesado o núcleo central que envolve as protagonistas mesmo para horário em que é veiculada. Suas cenas são carregadas de tensão. Num Brasil ainda com alto índice de analfabetismo, temos milhares de analfabetos midiáticos. E é aí que mora o perigo. A força da TV é tão grande, que o povo pode adotar a vingança como prática instituída, na ausência de uma justiça eficaz e rápida, e transformar o faz de conta em ação, a ficção em realidade. 

O que me pergunto é por que não se contam histórias que podem ir além do simples entretenimento? Num Brasil tão manchado pela corrupção, desonestidade, ganância e injustiça, a novela brasileira pode tratar de valores. Falar de valores é falar de vida, é dar ao ser humano aquilo que o preenche como indivíduo. E não me venham dizer que estes assuntos não dão audiência. Aqui neste blog já escrevi sobre a bela novela das seis, de Lícia Manzo, "A Vida da Gente". O folhetim abordou dramas reais e existenciais de seus personagens. Suas dificuldades com as surpresas da vida, angústias pelas escolhas que fizeram e pelos papéis que desempenharam nos relacionamentos uns com os outros. 


João Emanuel Carneiro optou pelo caminho inverso. Ao invés de valorizar coisas boas, trouxe à tona a sujeira que a humanidade se permite viver. Fez uma novela realista. O pano de fundo, não poderia ser mais simbólico: um lixão. Lá tudo começou e deve terminar. As protagonistas foram criadas numa condição sub-humana de se trabalhar. Catando restos, tralhas e trecos, e ao saírem de lá permaneceram impregnadas de imundícies que mancharam até suas almas e caráter. O fato de viverem dia a dia com o lixo não justifica nenhuma de suas atitudes no decorrer do folhetim. E nem que no lixo só haja sujeira e podridão. Como diz o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Nesta realista novela, com Carminha o autor mostrou como se pode estar rodeado de pessoas hipócritas que fazem discursos, invocam o nome de Deus, mas não vivem o que dizem. E ao mesmo tempo, de como o mundo é feito de Adautos que não sabem nem se expressar direito, mas tem uma retidão de coração e caráter inabaláveis. Ou de um Tufão que para amenizar sua culpa de ter atropelado um homem, deixa-se enganar pela suposta viúva abandonada. Além dos apaixonados Jorginho que não desistiu do seu grande amor, e Monalisa que por comodismo quase perdeu seu Tufão para sempre.  

   
Voltando à ficção. “Avenida Brasil” é um exemplo de afinação entre texto e direção. Suas cenas ficarão na memória da teledramaturgia brasileira. Cenas que nos faziam pensar que se tratava de um filme, em plena sala de casa. Mesmo com o deslize do núcleo Zona Sul que com uma história piegas não teve fôlego para chegar ao final da novela, o saldo é positivo. Com drama, suspense, comédia e ação. Uma mistura boa e inquietante. Talvez este tenha sido seu maior mérito: saber contar bem sua história. (Thiago Camara)