domingo, 10 de março de 2013

O Méier foi a (à) Bahia


Pai e filho relembraram os sucessos do disco dos Novos Baianos de 1972 


A rua era a Dias da Cruz, Zona Norte carioca, mas parecia a baiana Praça Castro Alves. O som era da década de 70. Intenso, leve, alegre, daqueles que ecoam pelas memórias da vida. No palco, um velho e eterno novo baiano: Moraes Moreira.

No sábado, 9 de março, o show em comemoração pelos 40 anos do disco dos Novos Baianos – “Acabou Chorare” – levou uma catarse musical, ao novo Imperator (Centro Cultural João Nogueira), no Méier.  Sucessos se enfileiravam no set list, de “Besta é tu” a “Preta, pretinha”, passando por “Mistério do Planeta” e “Brasil Pandeiro”. Ao lado de Davi Moraes, seu filho, Moraes esbanjou vitalidade e energia para cantar a Bahia.  

“Pede para ele cantar uma musiquinha ruim. Tô cansado de tanta música boa”, afirmou, irônico e perplexo, meu irmão, companheiro desta jornada musical.

Durante o show, era como se o Farol da Barra estivesse ali, iluminando aquela noite. Como se as ladeiras do Pelourinho se materializassem com sua magia e alegria. O trio elétrico pedia passagem convidando aquela gente bronzeada a mostrar o seu valor. E foi o que Moraes Moreira fez: um grande Swing de Campo Grande, com a guitarra afinada e potente de Davi que protagonizou um dos melhores momentos da apresentação ao mostrar a força do “Maracatu Atômico”, e só no instrumental. Com direito a descida do palco para uma performance junto à plateia. Foi uma breve ponte entre o Rio e o Recife, ao lembrar de Chico Science e sua Nação Zumbi. A ausência da voz de Baby do Brasil foi sentida em “A menina Dança” e “Tinindo Trincando”. Mas a força da interpretação de Moraes e Davi deixou as lembranças de lado.

A parte técnica do Imperator contribuiu e muito para a qualidade da apresentação. Som e luz impecáveis também ajudaram a fazer o show ser memorável. A presença de um espaço cultural como este, em plena Zona Norte do Rio, mostra a importância de investimentos fora do eixo Centro-Zona Sul.
Influenciados pelos tropicalistas, surgiram os Novos Baianos nos anos 70. A Bahia ganhou o Brasil. O Brasil viu sua brasilidade ser reforçada pela intensidade, alegria e qualidade da música baiana. E naquela noite de 9 de março, o Méier foi a Bahia. Não se sabe bem se ela que veio a ele ou vice-versa. O que não se pode negar é que foi uma noite inesquecível de reverência ao melhor do Brasil.
(Thiago Camara)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ele é esperança



Ela nasce no escuro e surge no horizonte noturno onde os olhos não podem ver

Ela surge brilhante, uma luz incessante que aquece o peito de quem a resolve acolher.

Ela renova a lembrança de um ser que avança sem medo de viver.

Ela é a liberdade de sonhar, a certeza de alcançar, a graça que há em amar.

Ela se faz menino que mesmo sem abrigo decide em nós renascer.

Ela se chama esperança, mas também tem por nome Jesus. 


Feliz Natal e um 2013 cheio de esperança! 

Thiago Camara 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cenas urbanas



Outras cenas urbanas são gentilezas que fazem parte do nosso dia a dia



Duas cenas clássicas do cotidiano urbano. Tinham tudo para dar errado. E reforçariam minha certeza de que a humanidade está perdida, de que o “olho por olho, dente por dente” é o que prevalece, de que o homem é um idiota mesmo que vai morrer sozinho com seus gadgets, tablets, Iisso, Iaquilo, porque só sabe se relacionar com – e por meio das – as  máquinas. 

Fui surpreendido. 


Chegava a uma Ipanema de sol a pino em pleno primeiro sábado do mês. Praia lotada, todo mundo querendo se preparar para o verão. Devia ter gente de todo lugar da cidade. A Lagoa Rodrigo de Freitas, ali bem próxima, estava com seu entorno quase que todo interditado para estacionamento. Eu e minha namorada tínhamos um compromisso no meio da tarde, neste cenário, e precisávamos de uma vaga para estacionar o carro. Rodamos um pouco e, incrivelmente, na Visconde de Pirajá (rua principal do bairro) vimos um cidadão colocando uma toalha na mala do seu veículo. Pensamos: “ih agora que nos viu parados, vai fazer hora, fingir que não está nos vendo, só pra ter o prazer de jogar na nossa cara que ele sai da vaga na hora que ele quiser...” e outras coisas que os cariocas adoram fazer nos estacionamentos dos shoppings centers. Perguntamos se ele ia sair. E ele veio até o nosso carro e “todo preocupado” disse: “Vocês podem esperar um pouquinho? É que meu caro está fervendo (estava no sol) e eu estou esperando minha esposa que entrou ali na galeria”. Olhamos um para a cara do outro e pensamos em voz alta, claro! Acertamos na loteria. Uma vaga em Ipanema, em dia de sol. 


Como se não bastasse, a gentileza do nobre cidadão continuou. Vendo que a esposa demorava além da conta nas vitrines da galeria, ele preocupado em nos fazer esperar ainda mais, foi atrás dela, a apressou para entrar no carro e sair para dar lugar a nós. A esposa chegou com a filha. A menina entrou no banco de trás com o pai e a mãe seguiu ao volante. Antes que ela terminasse a manobra, o nobre cidadão ainda virou-se para trás, acenou e deixou na gente uma sensação de esperança e certeza de que educação e gentileza são inspiradores nos dias de hoje. Ganhamos o sábado.


A outra cena foi no Grajaú, bairro em que moro. Estava saindo de casa para fazer natação e tocou o interfone. Era o porteiro dizendo que o vizinho de umas quatro casas para trás estava lá embaixo reclamando que nosso carro, que fica na rua, estava atrapalhando seu entrar e sair de casa. Detalhe o carro já estava parado na frente da casa dele há alguns meses. Já desci, pensando no pior. Ao chegar à portaria me deparei com um senhor de cabelos brancos, muito educado, simpático e que ficou me pedindo desculpas por estar me importunando. “Imagina, vamos lá resolver isso”, eu disse quase que emendando num convite para ele subir e tomar um café comigo. Na porta de sua casa, coloquei o carro poucos metros para trás e acabei com o incômodo que o estava inquietando. Ele me agradeceu demais e pediu também mais desculpas por ter tomado meu tempo. Resultado: conheci um vizinho educado, prestativo, simpático, gentil. E tive a certeza de que há muitas mentes e corações bondosos e solícitos escondidos nos nossos centros urbanos. Pena que encontrá-los me causou tamanho espanto inicial e vontade de escrever este texto para disseminar esses gestos simples para além do meu peito. Poderia ser sempre assim. Ganharíamos os dias. (Thiago Camara)         

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Namorar







Se o amor chegou faz tempo, não deixa ele morrer por dentro. 
O dia traz a chance de recomeçar.
À noite é certeza de poder encontrar. 
Sorriso sincero, aquele jeito reto, a paz que emana do olhar. 
Nada pode ser senão beleza. 
Espera ansiosa de quem se reconhece na franqueza. 

Se o tempo é inimigo do amor? 
Só para aqueles que nas primeiras brigas o substituem pelo rancor. 
O sol vem iluminar e a lua conosco se apaixonar. 
As estrelas enfeitam o céu, lugar onde a gente, um dia, vai morar. 
Nada pode ser senão certeza. 
Que mexe por dentro e acalma o coração no tormento. 

Se me faz melhor, não pode ser um samba de uma nota só. 
Tem que ser recíproco e contínuo. 
É testar a paciência, ser alegria na ausência, 
é a chance que se tem de sempre caminhar.
Nada pode ser senão leveza. 
Que conquista de primeira e leva a dureza pra longe daqui. 


Se é luz no escuro, se me encanta o futuro que posso trilhar, se é cuidado puro...
Ah! nada pode ser senão namorar, noivar e um dia, enfim, casar! (Thiago Camara) 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Avenida Brasil"






Boa parte do Brasil, inclusive este blogueiro, acompanhou com militância “Avenida Brasil”, novela das nove, da Rede Globo. Este folhetim, de fato, é envolvente e bem escrito. Mas o tema central do enredo não é lá muito novo assim. A vingança tem sido assunto recorrente nas últimas novelas globais exibidas no horário nobre. Povoou os capítulos de “A Favorita” (2008), de João Emanuel Carneiro, o mesmo de Avenida Brasil; “Passione” (2010), de Silvio de Abreu; Fina Estampa (2011), de Aguinaldo Silva, entre outras. 

Dizem que ela é um prato que se come frio. Outros afirmam que ela não compensa. O fato é que a vingança ilude, cega e dá uma falsa sensação de justiça. A pessoa que se deixa dominar por este sentimento se perde nele mesmo e ainda tem a pretensão de fazer o papel de Deus, nesta ânsia em dar o troco por algum mal realizado. Vamos à novela. Rita/Nina passou sua vida inteira com a ideia fixa de se vingar de sua madrasta Carminha por um roubo cometido e todo mal praticado contra o seu falecido pai. Nesta obsessão por acabar com a vida da ex-madrasta, Nina perde referenciais, valores, e até o amor que nutre por Batata/Jorginho seu namorado de infância que conheceu no lixão onde morou. O papa João Paulo II dizia que “o homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido...”. Sendo dominada pelo sentimento da vingança, Nina perde sua beleza e generosidade, além de passar a ser estranhada por aqueles que conviviam com ela anteriormente ao plano ser colocado em prática. 



Apesar de acompanhar a novela, achei pesado o núcleo central que envolve as protagonistas mesmo para horário em que é veiculada. Suas cenas são carregadas de tensão. Num Brasil ainda com alto índice de analfabetismo, temos milhares de analfabetos midiáticos. E é aí que mora o perigo. A força da TV é tão grande, que o povo pode adotar a vingança como prática instituída, na ausência de uma justiça eficaz e rápida, e transformar o faz de conta em ação, a ficção em realidade. 

O que me pergunto é por que não se contam histórias que podem ir além do simples entretenimento? Num Brasil tão manchado pela corrupção, desonestidade, ganância e injustiça, a novela brasileira pode tratar de valores. Falar de valores é falar de vida, é dar ao ser humano aquilo que o preenche como indivíduo. E não me venham dizer que estes assuntos não dão audiência. Aqui neste blog já escrevi sobre a bela novela das seis, de Lícia Manzo, "A Vida da Gente". O folhetim abordou dramas reais e existenciais de seus personagens. Suas dificuldades com as surpresas da vida, angústias pelas escolhas que fizeram e pelos papéis que desempenharam nos relacionamentos uns com os outros. 


João Emanuel Carneiro optou pelo caminho inverso. Ao invés de valorizar coisas boas, trouxe à tona a sujeira que a humanidade se permite viver. Fez uma novela realista. O pano de fundo, não poderia ser mais simbólico: um lixão. Lá tudo começou e deve terminar. As protagonistas foram criadas numa condição sub-humana de se trabalhar. Catando restos, tralhas e trecos, e ao saírem de lá permaneceram impregnadas de imundícies que mancharam até suas almas e caráter. O fato de viverem dia a dia com o lixo não justifica nenhuma de suas atitudes no decorrer do folhetim. E nem que no lixo só haja sujeira e podridão. Como diz o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Nesta realista novela, com Carminha o autor mostrou como se pode estar rodeado de pessoas hipócritas que fazem discursos, invocam o nome de Deus, mas não vivem o que dizem. E ao mesmo tempo, de como o mundo é feito de Adautos que não sabem nem se expressar direito, mas tem uma retidão de coração e caráter inabaláveis. Ou de um Tufão que para amenizar sua culpa de ter atropelado um homem, deixa-se enganar pela suposta viúva abandonada. Além dos apaixonados Jorginho que não desistiu do seu grande amor, e Monalisa que por comodismo quase perdeu seu Tufão para sempre.  

   
Voltando à ficção. “Avenida Brasil” é um exemplo de afinação entre texto e direção. Suas cenas ficarão na memória da teledramaturgia brasileira. Cenas que nos faziam pensar que se tratava de um filme, em plena sala de casa. Mesmo com o deslize do núcleo Zona Sul que com uma história piegas não teve fôlego para chegar ao final da novela, o saldo é positivo. Com drama, suspense, comédia e ação. Uma mistura boa e inquietante. Talvez este tenha sido seu maior mérito: saber contar bem sua história. (Thiago Camara)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O baile do vento e do mar


         

        Queria me banhar nas águas do teu sofrido olhar. Pegar carona com o vento e cheirar seu perfume novo pra me acalmar. Lançar-me nos mares de ti e sentir-me escolhido por ser o primeiro do teu pensar. 

        Como onda que se entrega, nela quero tudo aquilo que me faz sonhar. Seu abraço, o amasso, a cena que deixamos por realizar. O corpo em chamas só tua água pode acalmar. É lembrar-me ser teu abrigo, o amigo que te impulsiona ao te escutar. 

        Há de certo que o barco espera a gente para começar a navegar. Quero estar pronto, disposto a ver teu rosto coberto pela alegria que anima meu esperar. A paixão que me encanta ainda tem eco naquelas primeiras trocas de olhar.  De hoje em diante, quero voltar a bailar como a sintonia do vento e do mar. 
(Thiago Camara)

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Grande Encontro




Fazia alguns anos que não se demorava naquele lugar. Tinha feito escolhas que o levaram a um universo muito peculiar. Era como se vivesse num castelo, preso, acabrunhado, deslocado. Sentir aquele cheiro o renovava. Ouvir aqueles sons o remetia à sua idade mais livre. Estar ali o enchia de poesia. E sua alma de tão cinzenta se coloria a cada segundo ali estático.


Seus pensamentos vinham intensos e mansos. Tinha a chance de trazer sua vida de volta ao rumo que um dia descarrilou. O peito estufava a cada respirada e logo os olhos eram preenchidos de lágrimas. As águas salgadas desciam com um misto de arrependimento e esperança. Vivia um novo encontro. 


Havia abandonado um grande tesouro. Negara todas as alegrias e vivências compartilhadas por longos anos de convívio. Foram promessas cumpridas, vitórias divididas, lutas combatidas e tudo isto tinha ficado ao largo de sua vida. 


Ouvia uma voz interior dizendo: “sempre é tempo de recomeçar”. Pensava que de tão clichê esta afirmação poderia lhe ser útil neste momento de reencontro. Era a oportunidade de dar uma chance à coragem que estava adormecia dentro de si. 



Ele estava ali diante dos seus olhos. Imenso, infinito, profundo e manso. Parecia que estava à espera do seu passo. Ansioso por recebê-lo mais uma vez em seus braços. O mar tinha todo um jeito de fazê-lo sentir-se mais perto de Deus. Era como se o Criador tivesse preparado aquele cenário para falar novamente do seu amor. 



Lançou-se, então, com destemor. Rumava para mais longe e seguia sem hesitar. A liberdade de ali estar, o consumia. Sentia o sol pulsante a lhe esquentar. Lembrava de como era sua história antes de se afastar do seu melhor amigo. A alegria, enfim, voltava ao seu lugar. A esperança varria seus cabelos com a força do vento a soprar. 


Naquela manhã, era como se Deus tivesse se personificado naquele mar para trazer seu filho de volta ao caminho. Não podia mais deixar de contar com aquele que um dia o ensinou a ser também pescador de homens. As ondas batiam com mais fervor. O vento soprava um novo impulsionar. E o sol iluminava seus pensamentos com fé e poesia. Vivia um novo encontro. Mas este era como se fosse o grande encontro. (Thiago Camara)