domingo, 29 de abril de 2012

A força da coragem*







Para onde foi aquela coragem? Aquela gana de ser atirado. O jeito impulsivo e ousado. Parece que ficou à margem do rio da existência que passa sem clemência e leva a inocência para longe daqui.
Quisera voltar no tempo e vasculhar os momentos em que a aparência correspondia à essência de um ser destemido e vital.
Um passo em falso foi duro. Como um golpe abrupto que trouxe para a luz o escuro. E apagou o brilho mais puro de um ser diferencial.
E de repente chegou a mesmice. Aquela velha chatice de em tudo perceber a idiotice que é repetir um proceder normal.
Nada mais desumano esperar que igualar pensamentos seja um alento para os corações sedentos por algum ideal.
Ser diferença é fazer a experiência de que é nobre cada existência. 
A essa altura a coragem nada contra a força do rio para voltar à nascente. E ser força recorrente neste mundo de histórias tão desiguais. (Thiago Camara)

*Texto livremente inspirado no filme Histórias Cruzadas (The Help). Um dos melhores que já vi em toda a minha vida. 
  Veja o trailer:




domingo, 8 de abril de 2012

Mega Missões




                                                                          Foto: David Zapata




Foram só dois dias do feriado da Semana Santa, mas que pareciam uma semana inteira. Saí cedo de casa, muito antes de esperar o sol nascer. A “Cidade Maravilhosa” ainda acordava e eu me preparava para iniciar uma Mega Missão com a Juventude Missionária. Imitar Jesus Cristo e seus apóstolos na alegria, na assistência e no contato com seu povo, mais especificamente o de Araruama, litoral do Estado do Rio.
O clima no ônibus ainda era devagar como se os missionários estivessem guardando forças para os dias que se seguiriam. Seus gestos eram espontâneos, suas faces alegres, o jeito de falar, simples. Estavam ali em busca de algo mais. Iam além da rotina dos grupos e movimentos da paróquia. Falar de Jesus era um privilégio. E lembrá-lo em meio aquela Semana Santa era fazer memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Alguns missionários ficaram à margem da Lagoa de Araruama. O cenário não poderia ser mais bíblico. Fechava os olhos e imaginava que ali Jesus poderia ter caminhado com seus discípulos e numa daquelas barcas, na areia, subido para pregar aos pescadores. Outros foram levar a palavra libertadora de Jesus ao cárcere humano de um lixão. Os relatos de que haviam moscas e urubus disputando espaço com os catadores de lixo me deixaram perplexo. Mas na coragem dos missionários que ali estiveram, vi a presença real do Cristo. Ele que visitava lugares e pessoas que a maioria desprezava, não deixaria de estar com aquele povo mesmo em meio a tanta sujeira.
 Nas visitas às casas e nas celebrações nas capelas e na Matriz de São Sebastião, a alegria e acolhida aos missionários era experimentada. As histórias de vida eram inúmeras. O sofrimento, presente em todas elas. E a fé na certeza de que naqueles dias aquele povo ainda ia experimentar a Ressurreição.




Missionários "loucos" por Jesus na Praia do Hospício

Na Vigília Pascal, depois de exaltarem o Cristo Ressuscitado através do Hino de Louvor (Glória), os que esperaram o cumprimento da promessa, viram e sentiram uma verdadeira “Chuva de Graças”. O Deus fiel deu uma clara demonstração de amor ao seu povo. A resposta só poderia ser de extrema alegria como se viu ao final da celebração, em plena praça, em frente à Igreja. Jovens de todas as idades pulavam, cantavam e dançavam a certeza de que o seu Jesus é um Deus de Mega bênçãos, Mega projetos, Mega amor, Mega doação e Mega serviço.  
Por tudo isso, nossos olhos precisam brilhar a luz de Cristo vivo!
Coragem Missionário!

Obrigado Juventude Missionária, 

Thiago Camara 


Neste vídeo você vai conhecer o serviço da JM na Semana Santa 2012!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A vida é agora




O entardecer na Via Appia Antica, em Roma, Itália (Foto: Thiago Camara)

A vida não admite ensaio. Ela acontece. E precisa de gente que queira fazê-la acontecer. É permeada de sentido e espalha o riso de quem a soube entender. Não se limita ao espaço físico e ecoa para além das ilusões. É concreta e quer gente reta que não faz do seu dia-a-dia uma grande encenação.
A vida acolhe os sofridos e estimula os indecisos a seguir sem hesitação. É fonte de alegria e esperança, na certeza que o grito pode extravasar a opressão. É o sorriso da criança, é o passo da dança que traz à tona a lembrança guardada em algum porão.
A vida é feita de escolhas. Ninguém pode se eximir daquilo que lhe cabe. É como a folha que nasce para ser sombra, mas precisa do caule para lhe sustentar.  É a partilha vivida, é a companhia expressada, o olhar de estímulo e a carícia declarada.
A vida tem suas consequências. Um dia ela cobra de volta o que a gente lhe fez.  É cercada de erros e acertos. Pode renovar a inocência e revelar que a essência é muito mais valorosa que a aparência.
A vida não tem “replay”. É de cenas únicas e raras que precisam ser aproveitadas em cada instante, senão passa. Morre e deixa de ser vida. (Thiago Camara)

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Beleza Mulher




A beleza não se esconde. É crescente e exposta todos os dias em que acorda.
De manhã não se agita. É calma e sempre morosa no início do dia.
Quando se levanta a beleza explana sua alegria e vontade de vida.
Desfila seu encanto e traz ares de requinte aos lugares por onde passa.
A beleza não se perde. É renovada todo dia, no momento em que se faz menina.
Ela tem dengo, charme e ginga. Está sempre a procura de um alento.
À espera do momento que se pode transformar.
A beleza só precisa de um pretexto para se tornar mulher.
Todo dia, a cada hora, instante.
Seja neste oito de março ou qualquer outro, a beleza será sempre sinônimo de você mulher.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Thiago Camara

terça-feira, 6 de março de 2012

Cárcere











Vivia num cárcere. Seus gestos eram milimetricamente calculados. E até se acostumara a ser comedida na fala, no sorriso e no pensamento. De uma criança alegre e ousada, tornara-se uma adulta desconfiada. Tudo ao seu redor poderia ser sinal de ameaça. Não sabia mais se relacionar com leveza. E seu discurso era, às vezes, abrupto e descontrolado. Todos tinham medo de chamar sua atenção. Aos poucos, afastava de si os amigos, os colegas de trabalho e os familiares. E se afastava de si mesma.
E vivia num cárcere. Repetia suas atitudes diárias como que em movimentos simulados. Chegava em casa correndo para deixar o jantar à mesa. Precisava cumprir o protocolo de recebê-lo envolvida no avental que ele dera a ela. O marido, como de costume, entrava em disparada para o banho. Envolvido com seus problemas de trabalho, não notava o vai e vem da esposa para agradá-lo. Ela, por sua vez, se saciava só em vê-lo devorar os quitutes que fizera. Não trocavam muitas palavras.
Era um cárcere. A cama era o único lugar onde se comunicavam. Ele reclamando dos defeitos e deslizes dela. Ela calada, tentava esboçar uma reação, mas tinha medo do que sua atitude poderia gerar. E seguiam construindo uma vida de aparências. Nas redes sociais, os poucos momentos em que ainda se divertiam eram estampados, compartilhados e curtidos. Ela conseguira, a muito custo, a autorização do marido para expor o casal para Deus e o mundo. Era ali que conseguia respirar um pouco de liberdade. Mas dentro de casa era um cárcere.
 Um cárcere. Tinha dificuldade de romper com esta situação. Tinha medo da liberdade. Não sabia o desconhecido que seria sua vida sem a presença do marido. Tinha medo de dar o primeiro passo. Tinha medo mesmo da sua felicidade. Acomodada, ela raramente se dava conta que a falta de atenção a incomodava. No fundo tinha esperança que sua vida voltasse a ser das alegrias dos primeiros encontros.
Cárcere. Presa, ela não se sentia sufocada. Era como se esta situação fosse a única solução para sua vida. Não havia possibilidade de mudança. Estava fadada ao insucesso. Esquecera até que nos tempos de escola era ela quem ganhava todas as medalhas de ouro nas competições de natação. Estava resignada à condição frustrante de viver sem perspectiva de lutar pela sua vida. Porque até a sua alma estava aprisionada. Sem forças, ela tentava também atentar contra a própria vida, mas se dera conta que morrera desde o primeiro dia em que se sujeitara a viver no cárcere. (Thiago Camara)  

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"A vida da gente"



A personagem Ana Fonseca pode se conhecer melhor na trama das 18h 


“A vida da gente” faz jus ao nome escolhido para o folhetim das 18h, da Rede Globo.  Como um primo meu, psicólogo, costuma dizer: “esta novela é toda trabalhada na relação”. As cenas se passam, normalmente, entre duas pessoas, com closes em seus rostos e realce em suas expressões, e os diálogos são os verdadeiros protagonistas da trama escrita por Lícia Manzo.   
No início da novela chamava atenção o fato da história não possuir nenhum vilão e ao mesmo tempo conseguir fazer sucesso num horário pouco nobre. Mais do que isso. “A vida da gente” conseguiu trazer para a ficção dramas reais e dilemas verdadeiros que vão muito além das maluquices de personagens caricatos que temos aos montes na televisão brasileira.
É, também, um folhetim que deu espaço para o autoconhecimento. A personagem de Fernanda Vasconcellos, Ana Fonseca, principalmente nesta reta final da trama, faz uma viagem para dentro dela mesma. E descobre, a partir dos seus sentimentos e ações, que a pior mentira é aquela que dizemos para nós mesmos. Que se esconder e simular seus desejos para satisfazer, sempre, o que a mãe, brilhantemente representada por Ana Beatriz Nogueira, projetava nela, pode ter sido o grande vilão da sua história. Quando abrimos mão de sermos os protagonistas do enredo que é nossa vida, corremos o risco de sermos marionetes nas mãos de quem tem influência sobre nós ou passamos a viver controlados pelos nossos sentimentos e emoções. Ana percebeu que, habituada a repetir gestos que ela pensava ser o melhor para ela, nunca tinha tido a oportunidade de encarar suas escolhas de frente. Terceirizar nossas decisões pode ser um artifício para não nos depararmos com os duros fatos que nos cercam, mas podem evitar uma surpresa inesperada no futuro. Foi o que aconteceu com a personagem de Fernanda.  
Falei da protagonista, mas posso citar vários outros personagens que também encaram com dureza suas realidades. Como o casal Cícero (Marcelo Airoldi) e Suzana (Daniela Escobar) que se descobre distante e esfriado em sua relação. Quando a esposa resolve expor a situação, o maridão se veste de todo poderoso e impregnado por seu orgulho rejeita recuperar a relação a dois para esconder a responsabilidade da sua ausência por estarem naquela situação.
Quem disse que um produto audiovisual na TV aberta não pode nos fazer refletir? Quem subestima a audiência, achando que num horário mais nobre este tipo de história não vai fazer sucesso? Os que ficam com uma visão cristalizada dos meios de comunicação como grande mal da humanidade não vão perceber que “A vida da gente” presta um grande serviço público ao deixar no ar, entre as cenas transmitidas e a assimilação da audiência, um espaço para as pessoas refletirem sobre as suas escolhas. Além disso, a novela revela que sempre é tempo de mudar. E recomeçar só é próprio de quem tem a coragem de se aventurar na busca de si mesmo. Assim seremos melhores internamente e com certeza os que estão a nossa volta serão os mais beneficiados com isso. 
Mais importante do que descobrirmos com quem Ana Fonseca vai ficar no final, se casará e se será feliz para sempre, é percebermos de que forma a vida da gente pode ser impactada com as verdades que a ficção nos fez a gentileza de expor na telinha. (Thiago Camara)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O coração que ama








Tava faltando você chegar para meu coração de novo se alegrar. Ele andava abatido. Batia devagar, mas reacendia na esperança de te ver voltar. Ele sorria tímido, talvez se guardando para te reencontrar.
Eram muitos sentimentos que se acotovelavam dentro do coração. O que mais chamava atenção era o amor. Ele carregava consigo a saudade, alegria, a paz e a liberdade. O coração sabia bem que sem a liberdade o amor não vai à frente. Ele fica murcho, esmorece até desaparecer de dentro dele. Então ele, que não queria ficar vazio, tratou logo de abrir espaço pra liberdade. Foram os dois preencherem o coração que a reboque chegaram os outros sentimentos. Era a saudade que conversava com alegria, a paz que já era íntima da liberdade...
De repente, o coração, aliviado, nem se deu conta. Você tinha voltado para tomar seu espaço que estava ali, guardado, entre todos os sentimentos que haviam se acomodado.
E ele voltou a se alegrar. Estava mais vivo. Batia intensamente. E o sorriso foi logo denunciando a vontade que aquele coração tinha de continuar te amando. (Thiago Camara)