quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Perdida vida



Vida humana perdida.
Se morrem 20 poucos na França, comoção mundial. 
Já na Nigéria mais de 2000 se vão e não se vê manifestação. 
Que diferença faz? 
Os pobres alegres do continente esquecido nunca serão capa de jornal.
A burguesia atingida é lucro, oportunismo e a hegemonia sempre prevalece.
Europa continente rico, tragédia é anormal. 
Mama África pobrezita sempre será relegada a vergonha internacional.
Vida humana perdida? 
Não. 
Depende da sua cor, do seu lugar no mapa, da sua relevância. 
Ou serás para sempre Perdida vida humana... (Thiago Camara)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Irmã Dulce



Está em cartaz um filme leve, belo e emocionante. “Irmã Dulce”, de Vicente Amorim, traz a história da freira baiana que não teve medo de regras e não se omitiu em enxergar “o próximo como a ti mesmo”, com grifo, como disse certa vez em uma entrevista.

Obstinada, perseverante, humana. Irmã Dulce foi uma missionária incansável nas ruas de Salvador. Recolhia os marginalizados, cuidava dos doentes e, sobretudo, dava a tantas pessoas a oportunidade de ter dignidade – “o que deveria ser essencial” – em mais uma de suas frases certeiras.

Bianca Comparato e Regina Braga dão vida à jovem freira que tinha intimidade com Deus e com seu santo de devoção, Antônio. Suas cenas revelam uma mulher atrevida e ousada que não media esforços para ajudar o próximo. Conhecida como o “Anjo Bom da Bahia”, Dulce foi além das paredes do convento para expressar a sua fé. Quebrando regras da congregação ia para as ruas da capital baiana, à noite, se encontrar com aqueles que davam sentido à sua crença.

Para cuidar dos seus pobres ela pedia dinheiro em todos os lugares. Das feiras aos gabinetes dos políticos. Conseguiu inaugurar um hospital onde antes se localizava o galinheiro do Convento de Santo Antônio. E não parou mais até seu falecimento em 1992.  

O Brasil tem a oportunidade de conhecer nas telas dos cinemas um tipo de gente profundamente comprometido com a humanidade. Ver a história de Irmã Dulce humaniza e é exemplo de diálogo, fé, esperança e caridade.

Apesar do seu processo de canonização estar em andamento no Vaticano, para o povo baiano Dulce já é uma santa dos nossos tempos. Os números das Obras Sociais que iniciou revelam um verdadeiro milagre. São 4 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano utilizados por usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), 1.005 leitos para o atendimento de patologias clínicas e cirúrgicas e mais de 10 mil cirurgias realizadas por ano. Para um local que era um galinheiro ser transformado em hospital e ainda servir à população é o maior sinal de que o legado de Irmã Dulce permanece até os dias de hoje. (Thiago Camara)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Breve vida


 
Vista da praia de Saquarema-RJ onde fica a Igreja de N S de Nazaré



A vida é sopro que passa sem perceber
Quando menos se espera, dispersa
Inverte a lógica natural
Desmonta o menos sentimental
É feita de riso, mas esconde o choro sofrido
É tormenta, mas também alegria anunciada
[A vida] é calmaria e ressaca
Se renova a cada página virada
Reergue o forte e lhe dá um norte
Quando a escuridão da morte
Implacavelmente vem
Vida escolhida
Permanece mistério
Quebra as expectativas
Renova desejos e esconde feridas
Vida rara. Breve vida.

(Texto e foto: Thiago Camara)



quinta-feira, 27 de março de 2014

Lembranças, inquietude e indecisão




      A dor que consome os sentidos parece zumbir os ouvidos atormentando o caminho que se percorreu. As lágrimas correm como um rio que diluem certezas e virtudes revelando indecisão. O vento não soprado é ânsia de um novo tempo aguardado entre folhas e rabiscos pelo chão.

Pode ser fome, pode ser sede, pode ser desesperança, pode ser angústia ou ansiedade que inquietam o coração.

O rastro do sono perdido escolhe um motivo para o consolo bem vindo que acalma e estende a mão.

O choro escondido, o perigo de ser visto, o pensamento arrependido a indecisão de se lançar no risco.



Nada parece ter sentido.

Nem a folha que cai no abismo.

Nem a ave que anuncia a despedida.

Nem a alegria esquecida.
Tudo se move sem brilho.



De repente o sol surge distante. Reacende a claridade e preenche a cidade vazia. As nuvens ensaiam sair de cena para dar lugar ao novo dia. O mar reflete aquele verde de esperança. O vento volta a soprar mudança, a criança dilata aquele sorriso que encanta...

O homem segue em frente e deixa de viver só de lembranças. (Thiago Camara)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Mãos que se juntam



Suas mãos estavam separadas. Não se olhavam, não se falavam, nunca mais haviam se encontrado. Estavam secas, ásperas, machucadas. Sentiam o peso do cansaço. Queriam apontar para o rumo certo e sair daquela estrada deserta onde não se enxerga um novo céu.
As mãos viviam desiludidas. Sonhando, deixaram de esperar. Esperando, deixaram de rezar. Seguindo, esqueceram de se reinventar. Faltava chegar aquele tempo. O momento oportuno para transformar a dor em fruto. Deixar a alegria desbancar o luto. Era um sinal. Era real, era, enfim, Natal.
Suas mãos voltaram a se tocar. Juntas se fortaleceram e voltaram a sonhar. Permaneceram unidas naquela fé de esperar. Sabiam que agora sim poderiam se transformar. Indicar novos caminhos, buscar outras soluções, se lançar no vazio para preenchê-lo com decisão.

E foi só o menino nascer que as mãos também se lembraram de agradecer. Por todos os dons que Ele fez nelas renascer. Pela vida nova que elas voltariam a se abastecer. E pela certeza de Ele nunca se esquece de quem um dia quis o reconhecer.   

Feliz Natal!
            Que Jesus renasça e renove a sua esperança,
            Thiago Camara 
  

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Gramática da vida




Alguns de nós nascemos com várias exclamações. Outros vêm ao mundo por um caminho de reticências. Não sabem bem se chegam ao próximo parágrafo de suas vidas. Ou se seus criadores o querem ver finalizar o enredo que mal começaram a esboçar.
E seguimos rascunhando nossas linhas, entre vírgulas e filosofias de uma receita que não pode ser vendida como solução para a felicidade pretendida. Os períodos precisam ter coerência, nem sempre concisão. Às vezes somos alertados por dois pontos que explicam o que precisa ser essencial. Separamos as sílabas fortes para os dias em que perdemos nosso norte.
Nada é muito normal na gramática da vida.  As regras podem e devem ser subvertidas. Com trema ou sem ele, nós somos responsáveis pelos fonemas que compartilhamos e devemos acolher suas conseqüências. Uma letra errada numa palavra amarga só precisa de borracha para tornar-se alva e gentil. Um aposto imposto não pode ser suficiente para conquistar um leitor desatento e ao mesmo tempo curioso.

Diretos, intransitivos ou indiretos os verbos revelam a ação do sujeito sobre seus objetos. Mas são os pontos que indicam o próximo passo. Se for pra terminar enfia logo um final. Se for continuar, mete uma exclamação e não segura a emoção. Se a dúvida pairar, não hesite em interrogar. Agora se for pra deixar no ar... Só mesmo os três pontos para deixar em aberto isso aqui, até que alguém venha e queira continuar...  (Thiago Camara)

sábado, 23 de novembro de 2013

Mudar o tom da canção



Quando a vida desafina e nada mais parece um belo e agradável som. É preciso ter coragem pra mudar o tom. Ajustar as notas, entoar novos acordes e seguir na canção. Um compasso bem marcado, nem sempre revela a harmonia de um tempo suave que ressoa pelos ares agradando mentes e corações. Um compasso desajustado pode ser só um pretexto para que a harmonia volte a impulsionar uma multidão.

O tinindo do diapasão ajuda o ouvido a sintonizar razão e emoção. O passo seguro nem sempre é certeza de exatidão. Pode ser aberta ou fechada, uma nota traz beleza e imensidão. Se um dia a gente acorda com dó de si mesmo. Sabe que no outro vem a certeza do sol que brilha mesmo tendo um ré teimando em voltar pra escuridão.

Quando tudo parecer perdido. Quando não houver mais sentido. Quando o som não soar bem, as notas saírem com ruídos e os músicos não quiserem mais cumprir seu ofício, ainda haverá um lá de esperança, um sol na lembrança de um mi daquela alegria escondida num faro de quem reconhece as curvas da vida.

O segredo pode não existir, mas o incentivo virá, donde talvez nem se possa esperar e uma voz segura vai entoar: Faça-se de si um mi maior num lá menor de rancor, tristeza e solidão. E cresça-se num ré maior onde um si menor te espera para desfrutar de um eterno sol maior a embalar sua história-canção. (Thiago Camara)